Adoptei um cão! E agora?

“O abandono é a condenação mais cruel, sentencia os cães a um medo duradouro que estará presente horas, dias, meses ou até anos. Medo esse que muitas vezes permanecerá apesar de a condenação ter terminado. Até que consigam dar-se conta que recuperaram uma vida…”

Do livro “Adóptame” de “Santi” Jaime Vidal e Eli Hinojosa

Adoptar um cão, seja uma atitude pensada ou uma daquelas adopções “por acaso” leva-nos a um outro passo, o perceber as suas necessidades, a sua linguagem, os seus medos e acima de tudo que a sua adaptação leva tempo. Quer seja um cão que foi recolhido na rua ou um cão que fomos buscar a uma associação temos que ser conscientes e ter em conta que esse cão tem um passado, no entanto o passado já não interessa, não o podemos mudar, resta-nos trabalhar a partir do que temos. Este cão, adulto ou não, vai precisar de se adaptar a uma nova realidade, novos hábitos e muito provavelmente a viver numa casa com uma família. Se esse cão nunca teve nenhum problema grave na vida o trabalho está facilitado, mas se esse cão já teve algum azar na vida temos que ter mais paciência, mais calma, mais atenção e empenho. 

A alegria de termos um novo elemento na família pode levar-nos facilmente  a alguns excessos que poderão atrasar o processo de adaptação. E quanto tempo demora um cão a adaptar-se? Depende, há muitos factores, há quem diga que demora x dias, mas isso é generalizar, é uma espécie de fórmula e um cão não é uma ciência exacta, como tal teorias e fórmulas valem o que valem. O cão é que sabe o tempo que precisa, ele é que nos vai dizer se o soubermos ouvir. Uma coisa é certa, um cão tem vontade de nos perceber e de se integrar, a questão é que precisa de estar num estado mental que lhe permita aprender, nenhum animal (incluindo o animal humano) consegue aprender ou aprender facilmente se mentalmente não estiver bem. Para um cão, que chegou a nossa casa se adaptar rapidamente, temos alguns pontos a ter em conta e condições que devemos proporcionar para conseguir esse tal estado mental que lhe permite a aprendizagem e principalmente conseguir confiar em nós.

Começamos pelo ambiente, num ambiente estranho o cão precisa de se sentir seguro, é importante proporcionar-lhe um local onde possa estar tranquilo e afastar-se das pessoas se assim desejar. O ambiente deve estar sossegado, devemos mexer-nos com calma e naturalmente, desta forma não vamos preocupar ou agitar o cão em demasia.

Explorar é importante, um cão só se vai sentir seguro depois de conhecer o ambiente que o rodeia. Deixe o cão ver e cheirar o que quiser, é importante perceber onde está e o que existe ali. Faz parte do processo de se sentir seguro. Se estragar alguma coisa ou fizer as necessidades, paciência, não estrague uma relação que está a começar, esta parte mais tarde resolve-se naturalmente.

Descanso, como foi dito atrás o cão precisa de um local onde se sinta seguro e consiga descansar, não só para recuperar o cansaço que acumulou na rua ou na associação mas também para conseguir processar calmamente todas as novas informações que vai recebendo. O descanso faz parte e é um dos pontos mais importantes para a recuperação física e mental do cão.

Devemos criar rotinas consistentes, a hora da refeição, do passeio, de dormir…quando um cão sabe o que vai acontecer sente-se mais seguro, se tiver demasiadas alterações vai ter demasiados picos de ansiedade e atrasar a adaptação.

Companhia, o cão é um animal social, estar sozinho não é algo normal ou natural para um cão, é importante nesta fase de mudança e muitas novidades estar presente, no entanto devemos ter em atenção que deve existir companhia e pouca ou até nenhuma interacção nos primeiros dias. O cão não nos conhece, ainda nos está a estudar, precisa de perceber se somos de confiança ou nem por isso (claro que somos mas ele ainda não sabe) e ainda vai aprender os nossos hábitos, como falamos, como nos mexemos, o que fazemos, como fazemos, etc… Claro que se o cão nos procurar e tentar interagir não o vamos ignorar mas é importante interagir calmamente e acima de tudo evitar demonstrações de afecto como “beijos” e abraços, para um cão com medo demasiada proximidade pode parecer uma ameaça e assim se perde a confiança de um cão.

Questões como ensinar obediência, dar a pata, santa, deita e outros têm tempo, não são importantes nesta fase. Nos primeiros dias um cão apenas precisa de tempo e espaço para perceber o que se passa em volta dele. Nesses primeiros dias nós só precisamos de fazer o que já fazíamos antes de o cão ter chegado a nossa casa: existir. 

Nunca devemos esquecer que cada cão é um cão e cada caso é um caso, mas estes são pontos gerais e básicos que se forem seguidos facilitam muito a adaptação de um cão a um novo lar. Muitos cães adoptados são devolvidos alguns dias ou semanas depois de chegarem à nova casa, nunca por culpa deles mas sim por falta de informação, compreensão, paciência e expectativas demasiado elevadas ou irreais por parte das pessoas. Se quer adoptar um cão pense bem, nada é pior do que ter a esperança de uma vida em família e voltar depois para uma jaula.

Eduque-se para educar e compreender o seu cão.

João Pedro

Educador Canino

Mania dos Cães – Educação e Treino Canino