As urgências e os “de repentes” na educação e treino de cães

Muitas vezes sou contactado por pessoas que utilizam frases como “tenho um problema urgente para resolver” ou então “foi de repente, aconteceu de um dia para o outro” ou “aconteceu do nada”…

Em comportamento não existem situações que surgem do nada!

Trocando por miúdos situações que surgem “do nada” ou “de repente” em cães…

Quando, por exemplo, dois cães que vivem juntos se começam a atacar isso é fruto de várias situações que se acumularam ao longo do tempo, sejam dias, meses ou até anos. O principal problema tem a ver com o facto de nós humanos nunca termos percebido que estava alguma coisa a correr mal naquele convívio e, por isso, usamos a expressão “de repente”, “do nada” ou “de um dia para o outro”. No entanto, se olharmos para a situação do ponto de vista dos cães, vamos perceber que o que aconteceu foi o descambar de um problema que vinha a piorar com o tempo.

Nas chamadas “urgências” a questão é outra, normalmente o que acontece é que um determinado problema de comportamento, seja de destruição, de mau relacionamento entre dois animais, morder pessoas ou rosnar se tornou complicado para o humano e daí ser “urgente” resolver o problema. Aqui consigo perceber o ser “urgente”, mas temos que ser realistas e perceber que a realidade é outra, sem dúvida há interesse e vontade em resolver a questão, no entanto estas questões “urgentes” são de resolução mais demorada e difícil na proporção da urgência, ou seja quanto mais “urgente”, mais difícil será e tudo porque foi uma situação que já se repetiu muitas vezes.

Muitas vezes nós humanos erramos por excessos ou carências e nos cães todos os excessos e carências trazem problemas mais dia menos dia. É importante encontrar um meio termo, um equilíbrio, e esse meio termo ou equilíbrio é diferente em cada cão, não há fórmulas ou regras que se apliquem a todos. Trouxemos os cães para o nosso mundo e por isso é nossa obrigação conhecê-los e compreendê-los para evitar problemas.

Muitas vezes dizemos que temos um problema com o cão, mas a realidade é que esse cão é que tem um problema, se lhe resolvermos o problema o nosso deixará de existir. Infelizmente hoje em dia aparece muita gente a resolver problemas aos humanos que acham que têm um problema com o cão e poucos a resolver problemas aos cães que os têm e por vezes bem sérios…

Para mim não existem “urgências” nem “de repentes”, existe a obrigação de sabermos mais sobre cães, de nos dedicarmos a eles e acima de tudo de lhes mostrarmos como se vive entre os humanos, porque afinal de contas somos nós humanos que vamos buscar os cães para nossa casa.

Como disse Jaime Vidal Santi: “Nos empeñamos que los perros sepan mucho de humanos…bastaria con que los humanos supieran un poco mas de perros…”

“Empenhamo-nos que os cães saibam muito sobre os humanos…bastaria que os humanos soubessem um pouco mais sobre os cães…”

João Pedro

Educador Canino – Mania dos Cães

A farsa do treino positivo

A farsa do treino positivo

“El entrenamiento positivo no és premiar siempre, és no castigar nunca”, esta frase de Jaime Vidal Santi (educador canino) resume muito bem o que significa treinar em positivo. No entanto desde que a expressão treino em positivo se foi tornando popular ou banalizando (como preferirem) começaram a aparecer de todos os lados treinadores a dizer que treinam em positivo. Se entrarmos um pouco mais no significado de treino positivo e sem usar termos técnicos resumimos da seguinte forma: Treinar em positivo é recompensar o cão de cada vez que faz aquilo que lhe pedimos. E aí está onde tudo começa a descambar apesar de a explicação estar correcta. Assim a definição de treino positivo de Santi ser, para mim, excelente uma vez que consegue fazer as pessoas que não têm conhecimentos técnicos sobre treino pensar e consegue por assim dizer, desmascarar os falsos treinadores positivos já que estes falsos treinadores em positivo são os que recompensam sempre mas para fazerem o cão chegar a um comportamento são capazes de tudo e o mesmo se aplica a quando querem que o cão deixe de ter um determinado comportamento. Em resumo penduram cães pelo pescoço, dão pontapés que chamam de toques, usam latas com pedras, colocam nos cães coleiras de picos e de choque e depois de usar isto tudo chamam o cão de “lindo” ou dizem “muito bem” e fazem uma festinha na cabeça e oferecem o biscoitinho. Ora “lindo” uma porra e o biscoitinho que o comam eles! Além disto alguns chegam até a ter fotos e vídeos nas redes sociais onde podemos ver cães com coleiras estranguladoras ou de picos. O que conta para que se possa chamar treino positivo é precisamente a ausência de castigos que esses sujeitos (já não chamo treinadores) insistem em chamar de “correcções” ora mais uma vez, correcções uma porra! São simplesmente castigos! Numa correcção apresentamos alternativas e ajudamos a encontrar o caminho para o objectivo!

Depois de servirem este cocktail de castigos e falta de conhecimentos e capacidades desculpam essas suas falhas com uma série de etiquetas que colocam no cão, do tipo “ele é teimoso”, a questão é que não existem cães teimosos, existem cães sem motivação ou demasiado stressados para compreender ou aprender o que quer que seja. Usam também muito a desculpa esfarrapada “não há outra forma”, não há outra forma o caraças, esse sujeito é que não conhece outra forma nem está sequer para pensar em ampliar os conhecimentos sobre cães, o seu comportamento e as formas amigáveis de ensinar ou seja, não está para perder tempo a aprender a comunicar com os cães. E poderia continuar por aí além mas nem vale a pena perder tempo com isso porque alguém se vai ofender e dizer que eu sou o tipo que nunca diz não aos cães e que nunca lhes levanta a voz, o que é verdade e não tenho vergonha nenhuma, pelo contrário tenho muito orgulho nisso porque passei e passo muito tempo a aprender a comunicar-me e a entender os cães e tempo nenhum a gabar-me de ser superior a eles e a vomitar desculpas esfarrapadas e teorias absurdas.

Assim sendo e para simplificar as coisas e haver uma distinção de métodos que todos consigam perceber, até mesmo aqueles que não têm conhecimentos profundos de treino, deveria chamar-se ao verdadeiro treino em positivo “treino amável” que foi um nome que ouvi em Espanha há uns meses atrás e sem qualquer dúvida faz todo o sentido pois ninguém pode dizer que tem um método de treino amável e de seguida andar a recomendar um colar elétrico ou a pendurar um cão pelo pescoço porque isso de amável não tem nada!

João Pedro

Educador Canino – Mania dos Cães

Os cães das associações

Um tema que “mexe” com muita gente, o grande número de cães que vivem ou passam por associações ou canis. São cães que ali chegam e têm as mais variadas origens, desde entregues por aquelas pessoas com quem viviam porque “já são velhos”, “estão doentes”, “ladram”, “largam pelo”, “fazem asneiras”, e por outros motivos que resumidamente estão directamente ligados a serem cães que foram levados para uma casa e deixados sem qualquer ensino porque as pessoas que os levaram estavam convencidas que o cão é “uma coisa” que se põe ali e já sabe o que tem que fazer, o que pode fazer e quando… (Há humanos assim…).

Depois há aqueles que se perderam ou fugiram, os que foram abandonados, muitas vezes na porta da associação ou atirados lá para dentro por cima do portão (há humanos que fazem isso…) ou nasceram na rua ou no monte num buraco qualquer…

Nas associações ou canis encontramos cães de todos os tamanhos e idades e de todas as cores e tipos de pelo, a variedade é enorme! E todos têm uma coisa em comum: são cães! Ou seja, são uma espécie, não uma raça, tal como o animal humano, antes da raça todos os seres pertencem a uma espécie!

Muitos destes cães vivem na associação toda a sua vida, são aqueles que ninguém quer ou talvez aqueles que não querem ninguém. Outros por terem um determinado problema físico ou incapacidade (que para eles nem é problema nem incapacidade) ficam para segundo plano, depois há os que têm uma determinada cor e que por isso “não são bonitos” e há ainda os que não se parecem com raça nenhuma e então não servem para os humanos dizerem que é cruzado da raça tal ou até que é da raça tal… Isto porque há seres humanos que procuram cães de raça por uma questão de estatuto…nada contra, mas pelo menos se querem ter o estatuto que tenham as condições para ter esse estatuto…

Estão lá também aqueles cães que tiveram algum problema de comportamento e foram descartados porque resolver um problema de comportamento de um cão requer o uso do cérebro e dedicação e há muitos humanos que têm mas não sabem usar.

Não tenho nada contra os cães de raça nem contra as pessoas que preferem um cão de raça, acredito que quando se procura um cão de uma determinada raça é por saber qual o seu aspecto quando crescer e também por se acreditar que aquela raça vai ter determinadas características, no entanto mais do que a raça as experiências que o cão tem e a aprendizagem formam aquilo que o cão será, infelizmente a ideia “o cão da raça X vai ser assim e ter esta personalidade” ainda está demasiado enraizada e depois aparecem as desilusões porque não se ensinou nada ao cão e apenas se esperou o tempo passar até o cachorro se transformar naquele “produto de supermercado” que estávamos à espera…os cães são indivíduos e por isso únicos e nascem de uma cadela não de uma linha de montagem em série!

Ainda há quem acredite que um cão que está num canil ou associação tem todo o tipo de problemas e não se vão adaptar a uma vida em sociedade, mas isso não corresponde de todo à realidade, estes cães poderão ter tido problemas no passado, mas esses problemas foram precisamente os humanos, não são cães que nunca mais poderão viver numa casa ou relacionar-se com outros cães, animais e pessoas, tenham eles a sorte de encontrar ou a possibilidade de escolher o humano que os vai ajudar, porque eu acredito que são os cães que escolhem as pessoas quando têm oportunidade.

Os cães das associações não têm problemas, têm falta de oportunidades.

João Pedro

Mania dos Cães – Educação e Treino Canino