Educação do cão, porque falha?

Uma das coisas que faço desde há muito tempo é observar as pessoas que querem ensinar um determinado comportamento a um cão, solucionar um problema comportamental ou mesmo trabalhar na educação do dia a dia. Isto ajuda-me a perceber as abordagens, o que fazer e como fazer quando alguma pessoa me contacta, permite-me também evoluir na forma como me relaciono com cada cliente e como passar melhor a mensagem. Nunca devemos esquecer que ao trabalhar com cães estamos antes de tudo a trabalhar com pessoas e todo o trabalho tem pelo menos três pilares que devem estar/estão obrigatoriamente ligados. O cão, a pessoa/família e o educador.

Uma das coisas que já encontrava há vários anos e continuo a encontrar frequentemente é que as pessoas querem resolver tudo o mais rapidamente possível, tudo tem que ser “para ontem” e se não tiverem que fazer nada ou alguém o fizer por elas melhor ainda. Esquecem facilmente que se querem um resultado há uma base que tem que ser construída e que sem essa base nada feito. Muitas das vezes querem saltar essa base e isso transforma-se numa das maiores causas para a falta de sucesso no ensino ou na resolução de um problema. Associado a isto temos a procura de resultados rápidos e por experiência posso dizer que quando há um resultado demasiado rápido há uma grande factura a pagar e os resultados seguintes podem ser maus ou podemos até chegar a resultados desastrosos.

Uma das outras causas é a busca da perfeição ou do cão perfeito. A perfeição não existe, digo muitas vezes que se algo é perfeito então há um problema, mais ainda quando estamos a trabalhar com seres vivos que são indivíduos únicos na sua espécie e como tal não são ciências exactas não podemos aplicar fórmulas para todos, cada cão é um cão e tem a sua capacidade de encarar o mundo, a sua personalidade, viveu as suas experiências, etc e por isso é fundamental que quem ensina se adapte a esse cão. Se procuro um cão que não estrague, que não ladre ou que não tenha comportamentos indesejáveis tenho que rever tudo e pensar se na realidade quero um cão. Um cão é perfeito sendo o que é, não o que quero que ele seja. Quando um cão tem um comportamento que não nos agrada temos que pensar se isso é assim tão grave, se haverá um motivo para esse comportamento acontecer e não ficar obcecados a tentar uma série de fórmulas que alguém nos disse para modificar o comportamento. Pode simplesmente o cão estar a ser cão ou então haver uma causa no ambiente que leve a esse comportamento e aí tenho que trabalhar a causa, não o cão.

Mas além destas causas há mais, como por exemplo atribuir as culpas ao cão e não assumir a nossa responsabilidade. Não controlamos imensas situações que nos rodeiam, mas controlamos o que podemos fazer. É verdade que muitas vezes há um azar ou alguma situação que nos impede de chegar a um objectivo, mas isto não acontece diariamente e temos que aprender a contornar e adaptar cada momento ao que queremos, isso depende apenas de nós e por isso não podemos nunca atribuir a culpa ao cão ou a outras pessoas. Por exemplo, se tenho um cão que tem medo de carros não vou dizer “ele tem medo de carros e não o posso levar à rua”, vamos sim mudar o horário de ir à rua de forma a encontrar menos carros ou mudar o lugar do passeio. Se tenho um cão que faz estragos em casa tenho que perceber a causa desses estragos e criar condições para que não se repitam. Não é assim tão complicado, tudo na vida de um cão é controlado por nós (e ainda há quem diga e quem acredite que os cães nos querem controlar…).

Temos que saber assumir as nossas responsabilidades e deixar de arranjar culpados ou empurrar culpas para o cão ou para terceiros.

Uma das outras causas para a falta de sucesso é o que se pode chamar o “isso não é possível” ou o “não vale a pena” …tudo é possível e tudo vale a pena! Quantas vezes me dizem isto e apontam para razões como “ele não aprende”, “tem a ver com a raça”, já tentei e não deu”, etc… Em primeiro lugar se um cão não aprende (e isto aplica-se às pessoas também) é porque quem está a ensinar não está a ensinar de forma a que o cão aprenda, como disse atrás, quem ensina tem que se adaptar de forma a conseguir passar a mensagem. Depois a raça, antes de ter uma raça temos um ser único, a raça tem influência no comportamento de um cão, mas mais do que a raça as experiências vividas e o relacionamento com os humanos têm peso naquilo que um cão se torna. Por último temos o “já tentei e não deu”, esta frase é simples, se tentou e não deu foi porque não tentou de forma a que fosse possível ao cão aprender e por isso é tempo de mudar de estratégia!

Portanto só nos resta querer, pensar no objectivo, traçar o caminho e seguir todos os passos até lá, tudo começa com uma boa base e se durante o percurso tivermos que recuar várias vezes não há qualquer problema, estamos a trabalhar para ajudar aquele que é o nosso melhor amigo e não tem mais ninguém além de nós. Por eles vale sempre a pena.

 

João Pedro

Educador Canino

Mania dos Cães