O que fazer quando um cão morde

Desde sempre nos disseram: “o cão morde!”, “esse cão é mau!” e outras expressões que directa ou indirectamente atribuem culpa ao cão por morder. Afinal morder é uma agressão, por isso quem agride é “o mau da história”… 

E se aprofundarmos a questão e procurarmos o motivo que fez o cão morder? É que podemos ficar surpreendidos, mas realmente depende do motivo! Por isso importa perceber o que fazer quando um cão morde.

E o motivo “é mau” não conta, porque não há cães maus! O “É traiçoeiro” também não conta! Assim como não conta o “Acha que é ele que manda” ou o “Quer mandar”, os cães não se importam com essas coisas, apenas querem viver!

É normal que ao sermos agredidos (seja por um cão ou por uma pessoa) haja algum “orgulho ferido” e, claro, se for o nosso cão ainda mais. Tudo normal.

Mas, afinal, o que leva um cão a morder?

Um ser vivo, mentalmente bem, com uma vida estável e todas as necessidades básicas preenchidas, não tem qualquer motivo para andar por aí a agredir quem lhe aparece pela frente. Reparem que disse: “ser vivo”, isto inclui o ser humano. O cão, sendo um ser vivo e com um sistema nervoso 100% compatível com o do ser humano, está no mesmo grupo e, por isso, nunca andaria por aí a morder quem lhe aparece pela frente! O conflito é algo que não interessa aos seres vivos; mas aqui, infelizmente, é o ser humano que temos de excluir por ser o único ser vivo que anda por aí a criar conflitos e guerras por interesse…

Ao contrário, um cão não tem qualquer interesse ou prazer em morder, um cão evita morder. E porquê? Primeiro, porque o conflito não lhe traz vantagem, tem consciência de que pode ficar ferido e sofrer com isso. Depois, porque há no organismo uma série de reacções químicas e alterações hormonais que, dependendo de cada cão, podem chegar a demorar vários dias até estabilizar.

Se fizermos uma análise profunda às histórias de cães que mordem ou morderam, facilmente vamos perceber que tudo começou a acontecer por medo! Nesta parte ainda há pessoas que ficam muito ofendidas porque são incapazes de aceitar que o seu cão tem medo. Então, não acreditam que o cão tem medo. O meu conselho é: Cresçam, aceitem os vossos próprios medos ou inseguranças, arranjem ajuda e parem de se refugiar atrás de um cão.

E aqueles cães que vão atrás de outros cães ou pessoas para morder?

Esta é a parte complicada, complicada para esses cães. Se já chegaram a esse ponto, foi por já terem passado por demasiadas situações de medo. Isso resultou numa aprendizagem: “Se morder consigo resolver tudo”! Então, o cão vai passar a morder quando sentir uma ameaça, que pode ser real ou não.

E quando um cão morde as pessoas de casa, também é por medo? 

Sim, é por medo, normalmente provocado por falhas na comunicação! A nossa pressa em ter respostas, a nossa frustração por pedirmos alguma coisa ao cão e ele não responder, etc., podem facilmente acabar por gerar medo. Se houver agitação no ambiente há stress (bom ou mau) e o cão não está mentalmente tranquilo para perceber o que queremos dele. Nós, pela falta de resposta, acabamos por nos apresentar como uma ameaça para o cão. É aí que surge o medo e a necessidade de se defender.

Como se resolve? Fica para um próximo texto. Agora, importa perceber porque é que o cão morde. Mas, antes de tudo, uma comunicação clara e um estado mental tranquilo são fundamentais.

Em conclusão, se um cão morde (ou mordeu) é importante rever o ambiente em que está e perceber o que está a causar medo, podemos mesmo ser nós e não há qualquer mal nisso (excepto se for propositado). É importante rever a atitude e a forma como abordamos o cão. Assustar não é educar. 

Se mudarmos o ambiente, a nossa atitude e a forma como comunicamos, um cão acalma, tem tempo de pensar e de nos compreender e, acima de tudo, passa a confiar em nós; depois disso, toda a relação ganha.

Neste texto nunca falei em dar biscoitos, técnicas de condicionamento e contra condicionamento, correcções ou qualquer outra técnica de treino. Não morder é um comportamento natural do cão, por isso a base da resolução está em mostrar-lhe que não tem necessidade de se defender de algo que ele considere uma ameaça, seja ela real ou imaginária. A partir daí, tudo está no seu devido sítio.

Nenhum cão devia ter de passar por situações de medo para aprender e muito menos viver diariamente assustado com alguma coisa.

Muito mais haveria para escrever sobre o tema, poderia dar explicações mais completas e técnicas, mas este texto é para todos, principalmente para aqueles que querem e fazem tudo para compreender os seus cães e ajudá-los.

João Pedro – Educador Canino

Mania dos Cães – Educação e Treino Canino