Sobre a lei que proíbe o abate de cães

Junho de 2018, estamos a poucos meses da entrada em vigor da famosa e muito celebrada lei que proíbe o abate nos canis (Está prevista para Setembro). No entanto continuamos a ter municípios que nem canil municipal têm! Outros têm canis improvisados sem as mínimas condições para os animais e outros municípios têm canis construídos há demasiado tempo e que nunca ou raramente sofreram obras de manutenção/requalificação. Continuamos a ver notícias de associações que estão lotadas, continuamos a ver mais noticias de cães encontrados do que pedidos de ajuda para encontrar cães (ou gatos) e continuamos a cruzar-nos com cães que estão na rua porque já não é fácil encontrar-lhes um lar, nem que seja temporário e continuamos a ver cães (e gatos) que vivem em condições miseráveis porque tiveram a infelicidade de ir parar às mãos de gente que nem devia ser considerada gente.
Felizmente vimos alguns municípios a criar ou reconstruir os canis, como aliás estava previsto ser feito em todos os municípios até Setembro deste ano, para que ao entrar em vigor a lei tudo estivesse a funcionar, esses casos são de aplaudir e não devem ser esquecidos.
Nesta altura pergunto onde está a boa vontade dos candidatos que na altura das eleições foram visitar associações e canis e todos, independentemente da cor política ou localização do município disseram basicamente a mesma coisa, algo do tipo “vamos trabalhar para ter um canil e criar condições para estes animais” … sei que é fácil falar e difícil fazer porque para passar à prática não dependemos só de uma pessoa. Longe de mim pensar que aqueles candidatos só foram fazer visitas de charme…
Mas a minha preocupação e as minhas dúvidas vão mais além! Se pegarmos nesta informação toda facilmente chegamos à conclusão que há muitos cães e gatos que nunca terão um lar e ninguém sabe qual o número exacto, existem apenas estimativas e não são nada animadoras, são demasiados animais “de ninguém” por esse Portugal fora.
Mas a minha preocupação, questão ou dúvida vai mais além, vai para o futuro, é que se pegarmos nesta informação toda temos que pensar em como vai ser quando tivermos canis a funcionar devidamente em todos os municípios e nos municípios que já têm canis, que como sabemos estão lotados. Se estão lotados como é que vão entrar mais animais? Alguns municípios incentivam a adopção, mas claramente não é suficiente. A esterilização/castração é um requisito para adopção, é uma ajuda mas por si só não dá resultado, se assim fosse já teríamos frutos. Então se continua a aumentar o número de animais, mas não aumenta o número de canis ou instalações para os acolher como vai ser? Onde os vão alojar? Como vão arranjar espaço para eles?
Infelizmente tenho uma suposição que é baseada em acontecimentos anteriores e até mesmo bastante recentes, é a resolução do problema da forma mais simples para os humanos e menos agradável para os animais, o abate dos inadoptáveis, aqueles que ninguém quer ou que têm algum problema de saúde ou comportamento. Acredito que vão chamar-lhe seleção e fazer a coisa como se estivessem a fazer um grande favor à sociedade e aos animais. Isto é uma suposição bastante negativa, mas se recuarmos no tempo e infelizmente não precisamos recuar muito, vamos encontrar este tipo estratégia para resolução do problema da sobrelotação de alguns canis. Portanto se não há espaço, retiramos cães para haver espaço para mais cães, tudo antes da entrada em vigor da lei.
A solução dos problemas com os animais não passa pela esterilização, não passa por criar leis que proíbem o abate, leis que dizem que (alguns) animais já não são bens materiais, leis que criminalizam os maus tratos, leis que obrigam ao treino de raças potencialmente perigosas. Até porque todas estas leis estão incompletas e foram nitidamente feitas em cima do joelho num momento de histeria colectiva em que as pessoas reclamavam por alguma coisa ou havia um ataque de algum cão… ficou bem encher os olhos às pessoas e as pessoas agradeceram e celebraram muito, mas nem sabiam bem o quê… A solução do problema, passa antes de tudo isto por educar as pessoas, se vivermos numa sociedade educada em relação aos animais nem seria necessário perder tempo a criar leis, até porque há valores que não são ensinados por leis ou imposições.

João Pedro
Educador Canino
Mania dos Cães

Foto cedida pela Associação de Defesa dos Direitos dos Animais e Floresta (Fafe). Visitem a sua página do Facebook fiquem a conhecer muitos dos cães que lá vivem e estão para adopção. Se não puderem adoptar ajudem com um donativo, ração, detergentes, camas, casotas, etc